domingo, 19 de julho de 2009

Barradas, o Virgem

A dúvida atormentava o jovem Barradas. No dia da ida à inspecção militar a Coimbra, o mancebo aproveitou para ir às putas e finalmente perder a virgindade. Confessou mais tarde, aos amigos, que após três breves bombadas o caralho saltou para fora. E foi justamente nesse momento, sem conseguir voltar a enfiá-lo, que ele inevitavelmente se esporrou.
Disse-lhe que sossegasse. Apesar de tudo a tentativa era válida e portanto, não era mais virgem. Mas Barradas não se deixava convencer e a dúvida persistia.
Os meses foram passando e a questão, em vez de serenar, agitava cada vez mais o nosso amigo. Chegou-se a um ponto em que já não conseguiamos aturá-lo e decidimos adoptar medidas extremas.
Lembrámo-nos duma moça cá da terra, a Geninha, que tinha reputação de ser maluca por homens. Mas parecia ser mais a fama do que o proveito, porque quando lhe fizemos a conversa a fim de saber se haveria hipótese de ela estar disposta a desonrar o Barradas, a rapariga ficou completamente transtornada e ofendida connosco.
-Então e se fosse a pagar? – Perguntei, para ver se a acalmava. Mas nem isso a fez mudar de ideias. Pareceu-me até, que ficou ainda mais irritada.
O desespero do Barradas era tanto que nem tivémos coragem de lhe contar a verdade. “Ficou de pensar. Tem calma que a Genhinha ficou de pensar no teu caso...”
Entretanto, os irmãos Aparício souberam do nosso problema e vieram ter connosco.
- A Geninha é nossa prima e pediu para a gente vir cá dar-vos um arraial de porrada, por causa do que vocês lhe foram pedir. – Comecei a imaginar-me nas urgências do hospital. De repente, lembrei-me duma coisa:
- Então e eu? Também sou vosso primo...
Eles riram-se. “Ó cabronada, acharam mesmo que a gente vinha cá bater-vos? Estávamos no gozo”. E eu, já mais sossegado, quis saber se a Geninha se tinha mesmo queixado. E eles, “não. O que ela disse, foi que estava arrependida de ter reagido mal, quando foram falar com ela. Mas que, por acaso, até tinha interesse em foder com o Barradas”. E nós, surpreendidos, “a sério?”.
- Olhem, é assim: para a semana os pais da Geninha vão numa excursão à Serra da Estrela e até dormem lá. De maneira que ela, nesse fim-de-semana fica sozinha em casa e mandou dizer que se o Barradas quiser que vá ter a casa dela, no Sábado, às 10 da noite e que leve camisas de vénus porque é para foder.
Mas o Barradas não engoliu a história, “isso é mentira, ela também vai na excursão.”
E os Aparícios insistiram que não, que a Geninha ficava.
Para resolver o impasse e dar confiança ao Barradas, ofereci-me para averiguar a situação e combinar melhor o encontro sexual com a Geninha.
Os Aparícios eram os mensageiros dela e eu o representante do Barradas. No Sábado à noite já estava tudo devidamente combinado. Por volta das 9 e meia, à porta do café do Mocho, dei as últimas instruções ao Barradas, “portanto vê lá se percebeste tudo e não fazes merda: a porta da rua tem as chaves por fora. Abres a porta, tiras as chaves e entras. Colocas as chaves na fechadura, mas pelo lado de dentro. Atenção que não podes acender as luzes”. E o Barradas, “como é que eu vejo?”. Não te preocupes, a claridade da Lua alumia pelas janelas. Presta atenção: vais às escuras pelo corredor e entras no quarto da Geninha, que é logo o primeiro à direita. Percebeste? Primeira porta à direita. Entras no quarto da Geninha que ela, porque é muito tímida, há-de estar na cama, já deitada, à tua espera. Tu chegas e enfias-te na cama ao pé dela. Não te esqueças que tens de lá estar às 10 horas em ponto e em caso nenhum podes acender a luz. Percebeste? O Barradas fez que sim com a cabeça. Dei-lhe duas palmadinhas nas costas. Porreiro pá, então adeus.
Eu e o Muralha começámos a andar. E o Barradas, “Eh! Onde é que vocês vão?”. E nós, vamos embora. O Muralha tem que ir entregar umas cassetes ao video clube. E tu, daqui a 15 minutos tens que estar na casa da Geninha, onde irás matar de vez a tua virgindade. E o Muralha, “aproveita que ainda tens uns minutos, bebe um copo para ganhar coragem”. E eu reforcei, “ às 10 horas já sabes o que tens a fazer. Adeus”.
Virámos a esquina, entrámos no meu Ford Escort e fomos embora.

A casa dos pais da Geninha é uma vivenda que fica isolada do resto das casas cá da terra. Deixámos o Ford estacionado nas traseiras da casa. Um dos Aparícios abriu a porta. Então o Barradas acreditou?
- Ele aparece. – Respondi.
- Pois, mas eu é que não vou enfiar-me naquela cama. – Garantiu Vítor.
Mostrei-me lixado. Porra, não vais como? E ele, estive a pensar melhor e não quero deitar-me com o Barradas.
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(continua quando me apetecer escrever o resto)

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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Não fomos ao Lux

Sábado, assim tipo 11 e tal da noite, deixei a Mekinha em casa a tomar conta das filhotas e dirigi-me no meu Opel até casa do Barradas. Ele e a mulher têm uma playstation onde cantam Karaoke. Também cantei, mas é claro que levei uma tareia do Barradas e fiquei desconfiado que há-de passar os dias agarrado ao microfone a treinar. Uma colega de trabalho da mulher dele que também estava presente, chamada Vânia, tentou igualmente o karaoke. Deu show. Não que tivesse cantado bem, mas enquanto cantava dançou de maneira tão sensual que nos deixou, a mim e ao Barradas, a salivar da boca.
Atenção ! Quando digo que ela dançou sensualmente, bem, vocês não conhecem a Vânia. Imaginem a Ana Malhoa no seu melhor e a seguir multipliquem a parte do melhor várias vezes: eis a Vânia.
E foi com a imagem da Vânia a cantar Shakira, que eu e o Barradas nos pirámos da casa (mulher) dele e metemos no carro com destino a uma noite de aventura.
Começámos por ir buscar umas amigas do Barradas, que não conhecia, a Setúbal para sairem connosco. Chegámos à cidade do Sado, fomos para os lados da Fonte Nova. O Barradas, assim que estacionei frente à casa delas, ripou do telemóvel para avisar que descessem.
Ficámos no carro à espera. Quando apareceram constatei que eram três e, à medida que caminhavam em direcção a nós, percebi que eram material de alto nível. O cabrão do Barradas tinha-se esmerado na companhia.
Feitas as apresentações, o Barradas tratou de se instalar no banco de trás com duas delas, enquanto a outra não teve outro remédio senão sentar-se ao meu lado. A modos que para dar logo a entender quem é que ia foder com quem.
Começámos por ir para os lados do Feijó, a um bar onde se fuma narguilé. Sentámo-nos na cave, nuns bancos baixinhos e chamámos o empregado. Além do inevitável Licor Beirão para beber, resolvemos experimentar o narguilé versão afrodisíaca.
Enquanto o cachimbo não chegava, fiquei a saber que as nossas amigas eram brasileiras de Minas Gerais.
Confesso que me esqueci dos nomes delas, mas recordo-me que duas eram massagistas e a terceira manicure. Senti alguma dificuldade por parte do Barradas em explicar como é que as tinha conhecido, mas o assunto morreu porque entretanto chegou o cachimbo e dedicámo-nos a mamar no bucal.
O sabor era doce, agradável até, mas fiquei com dúvidas acerca do seu efeito afrodísiaco. Sinceramente, acho que não resultou. Mas pronto, sempre deu para estarmos ali coisa de uma hora entretidos a conversar sobre assuntos banais, tais como sexo em grupo, swing ( troca de casais), bondage, etc.
Entretanto as nossas amigas, sem razão aparente, resolveram começar a beijar-se na boca entre elas, numa espécie de show lésbico. Eu e o Barradas fartámo-nos de rir com a cena. E foi num ambiente descontraído que deixámos o bar rumo às docas em Álcantara.
Porém, nas docas demorámos pouco, o Lux chamava por nós. Ao passarmos pelo Terreiro do Paço, por ter havido nesse dia uma manifestação de professores o trânsito ainda estava cortado, o que dificultava a passagem pelo local. Quando finalmente chegámos ao Lux, havia imensos putos para entrar, numa bicha imensa. Assim não dava. Passámos com o carro por debaixo duma especie de túnel e seguimos em frente, para dentro da zona portuária. Parámos para mijar mesmo junto a um paquete que ali estava atracado e resolvemos bazar para o Kaxaça.
Através da Vasco chegámos rapidamente ao Montijo. A discoteca estava cheia, com um ambiente espactacular. Dançámos toda a noite, quase até cair.
Às 6 e meia da manhã deixámos o local, já clareava o dia. Entre as duas rotundas junto ao Fórum Montijo, a BT da GNR mandava parar todos os automóveis para fazer o teste do álcool. Também fui ao balão, claro. Mas não acusei nada, ahahahahah.
Já na auto-estrada, comecei a pensar na forma como haveríamos, eu e o Barradas, de conseguir papar as brasileiras. Acabados de passar às portagens de Setúbal, olho pelo espelho e verifico o meu amigo a beijar alternadamente as duas gajas lá atrás. Percebi que ía haver mambo.
Surpreendentemente, conforme íamos parando nos semáforos de Setúbal, comecei a olhar melhor para a brasileira que seguia ao meu lado adormecida. Afinal, às luz do dia não era assim tão gira como me pareceu inicialmente. Julguei até, que fosse mais nova. Calculei-lhe perto de trinta anos, mas agora parecia-me mais perto dos cinquenta. Notei-lhe as mamas descaídas, as rugas no rosto e, no geral, talvez pela roupa, um aspecto de puta barata. Aos poucos, sei lá porquê, comecei a lembrar-me da Mequinha e a sentir uma vontade quase irreprimível de correr para casa. A brasileira parecia-me, agora, simplesmente horrorosa. Subitamente oiço um uivo, olhei para trás e percebi que as brasileiras havia acabado de fazer um broche ao Barradas. O banco de trás do meu rico carrinho havia sido conspurcado pelos fluídos seminais daquele cabrão. Deu-me uma fúria, encostei o carro e pus todos na rua. Arranquei de novo, atravessei o traço contínuo e dei meia volta com destino a casa. Pelo retrovisor ainda pude ver o Barradas a correr de punho no ar atrás de mim. Parei. Fiz marcha atrás, ele abriu a porta e sentou-se ofegante, no banco ao meu lado. Arranquei novamente e só lhe disse, não voltas a esporrar-te em nenhum carro meu, percebeste ?

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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Ler o futuro

Acabo de ler no JN que Silvester Stallone lê o futuro através do traseiro das pessoas. Ora aqui está uma notícia que não me convence, mas que me faz lembrar uma tipa que há muitos anos conheci no circo, a qual conseguia ler o futuro no órgão sexual das pessoas (porque no traseiro o que ela conseguia ler era o passado).
Parece que ainda estou a vê-la. Quando "leu" a minha "dianteira" vaticinou-me um futuro brilhante no cinema porno. Por acaso falhou a previsão, pois por amor decidi não aproveitar o potencial do meu André para fins económicos. Mas sei de casos em que lendo a traseira de alguns gajos, ela lhes conseguiu desvendar-lhes acertadamente um passado de enrabanço.
De qualquer modo, analisando a "traseira da Europa", será preferível "ler" um passado glorioso na terra e no mar do que prever um futuro de merda, que pelo rumo que as coisas têm levado é a previsão que todos fazem (excepto o governo).

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sábado, 12 de abril de 2008

A história de Bino.

Somos uma família numerosa com poucos nomes. O meu pai chama-se Vino, primo de Vino, ambos afilhados de Vino.
Nos anos 50 do século XX, Vino inscreveu-se para trabalhar nos Caminhos de Ferro. Entretanto, mudou de ideias e emigrou para o Brasil. Quando a CP respondeu ao pedido de emprego, o Vino mais novo, aproveitando a circunstância de possuir o mesmo nome* do primo que partira, preencheu a vaga em seu lugar.
Vino tornou-se empregado da CP em Santa Apolónia. Pouco tempo depois adoeceu com uma úlcera no estômago e foi operado. Durante o periodo de convalescença regressou à aldeia natal para uma mais cómoda recuperação.
Luisa era uma jovem de fora que ensinava havia pouco tempo na escola primária da aldeia de Vino. Começou a notar que enquanto dava aulas um estranho passava repetidamente à porta da escola olhando para ela.
Certo dia, ao tentar abrir a porta da sala de aulas, Luisa verificou que alguém tinha introduzido um pau na fechadura. Era necessário um serralheiro que conseguisse abrir a porta. Nas redondezas, o mais parecido que havia com um serralheiro era Ti António, o ferreiro da terra. Mas este não se deslocou ao local, mandou em sua vez o filho mais velho. Quando o jovem Vino chegou à escola para executar a reparação, Luisa reconheceu imediatamente o estranho que costumava fazer-lhe olhinhos.
Vino era de estatura baixa, mas possuia um cabelo magnífico cujo penteado suplantava claramente os seus congéneres mundialmente mais famosos no mesmo estilo, nomeadamente Elvis Presley e James Dean. Como devem calcular, um cabelo destes, só por si, conquistava corações.
Como típico beirão, Vino era de pouquíssimas palavras, mas os seus olhos pequeninos não deixavam margem para dúvidas sobre as suas intenções a respeito de Luisa. Bastou uma carta de Vino e pouco tempo depois começaram a namorar.
A seguir casaram. E desse casamento, uns anos mais tarde, nasceu este que vos escreve - Bino, de nome igual aos meus irmãos. E também de Bino, meu primo e afilhado de Vino, meu pai.
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*Vino e Vino são duplamente primos pois as suas mães eram irmãs e os seus pais, irmãos. Daí resulta que Vino e Vino tenham o nome completo perfeitamente igual, incluindo naturalmente os apelidos.
P.S. - Nunca se provou que tenha sido Vino quem entalou o pau na fechadura da escola.

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sábado, 22 de dezembro de 2007

Dedicado ao tio.

O meu tio é a única pessoa da minha família que às vezes visita este blog. Outro dia queixou-se-me de que ultimamente só tenho escrito merda por aqui. A fim de inverter (ou não) tal estado de coisas, aqui fica este post dedicado a ele.

No início da humanidade, antes de as mulheres terem inventado a linguagem oral, os homens comunicavam gestualmente. Fazer um manguito ou um caralhinho com os dedos, são exemplos ainda vivos dessa linguagem de outrora. O motivo pelo qual não desapareceram é óbvio – um gesto pode valer mais do que 1500 palavras.
Mas de todas as formas de comunicação que o homem utiliza, há uma que nem imagens, palavras ou gestos conseguirão substituir com tamanha eficácia quando se trata de insultar ou expressar um estado de alma. Apesar de ser tão velho quanto a humanidade, até hoje não conseguiram inventar nada mais expressivo do que um valente peido.
Sei do que falo pois sou um peidorrento razoável. De manhã, ao levantar, gosto de ir até à casa de banho e mandar um ou dois arrotos rectais. Nada de especial, exceptuando talvez o gozo de saber que me consigo fazer ouvir na casa dos vizinhos até 3 andares acima.
Todavia tenho um familiar que ao pé dele não sou nada. Mais do que produzir peidos memoráveis, ele transforma o acto de soltar gases sonoros pelo cu numa obra de arte de fino recorte.
Quem julgar que o peido é apenas uma expressão de mau gosto ou falta de educação fique ciente de que não possui sensibilidade suficiente para conseguir compreender o que é arte ou mesmo o belo.
O peido é arte quando aquele que o executa tem consciência de estar nesse momento a expressar sentimentos e emoções duma forma que só a melhor pintura renascentista, música barroca e pornografia dos anos 70 conseguem igualar.
Enquanto género de insulto cómico, o peido não tem rival e é precisamente neste campo específico que esse meu familiar peidorrento é genial. Ele domina com incrível talento a sublime arte do insulto através do peido. É um mestre a conjugar a oportunidade do momento, a duração, o timbre, a intensidade e a expressão facial durante a execução dum peido. Um peido dele é de nos levar às lágrimas. Se fosse americano, já estava milionário.
Mas não se pense que é uma forma de arte fácil. O peido desde há muito que é combatido por quem não o compreende. Trata-se duma arte para homens de barba rija e rebeldes. Ao pé do peido, o grafite é uma arte maricas.
Esse meu familiar tem por hábito jogar dominó e cartas no bar da sede do clube recreativo cá da terra. Como é sabido, estamos a falar de jogos em que a componente psicológica é importante quando usada como arma para desmoralizar o adversário.
Pois não tiveram descanso enquanto a direcção do clube não proibiu o meu familiar de se peidar no bar da sede, especialmente durante os jogos. Ao Rodrigues, que adormece a ler o Correio da Manhã e ressona mais alto que a serração do Tonho Pachorrito, não dizem eles nada.
Para evitar chatices no clube, o meu familiar acatou a ordem vinda da direcção. Agora em vez de dar peidos passou a bufar-se, claro. Mas não é a mesma coisa.

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segunda-feira, 15 de outubro de 2007

A reaparição dos irmãos Aparício (continuacion do post anterior)

(convém ler primeiro o post antes deste)
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É nas horas difíceis que se vê quem são os verdadeiros amigos. Quanto mais se afastavam da roulotte de Stephanie, mais pesava a consciência aos Aparícios. Se calhar fizemos mal em ter vindo embora, disse Samuel. O Cabrita pode estar em apuros.
Vítor sugeriu, o melhor é tirarmos à sorte para saber se devemos voltar
(A quem não conhece Vítor Aparício, nem dele nunca tenha ouvido falar, saiba que este espantoso trapezista andava sempre munido dum baralho de cartas de jogar. A teoria dominante acerca disso era a de que Victor tinha o vício do jogo. Embora ele rejeitasse a acusação alegando que preferia sexo às cartas).
Vítor exibiu o baralho a Samuel e combinaram que se saísse uma carta de naipe vermelho voltariam para trás.
Samuel puxou uma carta e virou-a:
- Terno de paus.
Tu não baralhaste, queixou-se Samuel. Vítor concordou.
Baralharam-se as cartas e uma nova carta foi retirada.
-Rei de espadas.
Baralhaste mas não me deixaste cortar, reclamou novamente Samuel.
Três tentativas mais e sempre saindo cartas negras. Até que finalmente apareceu a manilha de copas. Obedientes ao destino decidido pelas cartas, os Aparícios regressaram.
Mas ainda não tinham dado talvez meia dúzia de passos, puderam ouvir, na escuridão da noite, um barulho e um gemido. Perceberam que alguém, sofrendo com dores, estava caído no chão tentando erguer-se. Os Aparícios correram em auxílio reconhecendo o Cabrita. Enquanto o ajudavam a levantar-se, a luz dum súbito raio de lua surgido por entre as nuvens revelou-lhe a cara ensanguentada. Notaram também, debaixo dos seus pés, esfrangalhado no chão, o ramo de flores que tinham visto Antero transportar ainda há pouco
Samuel, furioso, desatou a correr no sentido da roulotte de Stephanie.
Onde vais tu? Perguntou Vítor.
Fica aí a socorrer o patrão que eu vou dar uma sova ao Antero. Filho da puta do anão está muito enganado se julga que isto fica assim.
Samuel tem calma, ordenou Cabrita.Calma não, senhor. Eu sou um antigo pára-quedista, fui treinado para resolver certas situações de forma violenta. E esta é uma delas, vou dar cabo do Antero.


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sábado, 1 de setembro de 2007

(Continuação do post anterior) - 4 ª Parte

Se deveriam alertar o Cabrita? Eis a pergunta que os irmãos Aparício fizeram a si próprios.
Pensaram. Olharam-se por breves segundos. Fizeram cara de achar que sim. Mas de repente, um esgar, um sorriso velhaco e o soltar dum uníssono “nahhhhh”.
Foram-se embora, deixando Cabrita entregue à sua sorte.
Passado um minuto, o marido de Stephanie abriu a porta da roulotte.
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O grande Antero (nome artístico) tinha um passado envolto em pormenores mal revelados.
Não havia a certeza de realmente ser espanhol. Ao certo, sabia-se que trabalhara num circo em França onde conheceu Stephanie. Consta que o pai dela, desgostoso com o casamento da filha, se terá suicidado. Mas Tito de La Lomba sabia que não era verdade. Numa noite de copos, Antero confidenciou-lhe que o sogro tinha morrido subitamente na cama com uma puta durante um “69” (ironicamente, o Pai de Stephanie era conhecido por "Estêvão das matemáticas").
Mas o facto da sua morte ter sido acidental, não significa que Estêvão não tivesse tido um grande desgosto com o casamento da filha. Realmente a todos pareceu estranho que Stephanie, uma mulher tão bela, tivesse tomado Antero por consorte. E não pelo facto de este ser um inveterado mulherengo, mas porque realmente era um homem muito feio (independentemente de ser anão).
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(Continua... pois, que remédio)
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quarta-feira, 29 de agosto de 2007

(Continuação do post anterior)

A história dos meus amigos (Parte 3).
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Perturbados pelo cenário a que assistiam, os Aparícios, lá fora, quase entravam pela janela. Por sua vez, lá dentro, Cabrita afundava-se na cadeira recuando face a Stephanie. Mas o empresário, fiel aos seus princípios, apesar da carne apetitosa rente ao seu corpo, resistia estoicamente repetindo que não tinha dinheiro.
Entretanto, os Aparícios notaram que ao longe se aproximava um vulto. Vinha a pé do lado do parque de estacionamento alguém que parecia caminhar lentamente em direcção à roulotte.
O dia terminava, mas ainda existia claridade suficiente para adivinharem que aquilo que viam, embora parecesse um ramo de flores andante, provavelmente seria Antero, o marido de Stephanie, que chegava carregando um ramo de rosas vermelhas. Era um ramo tão grande, que lhe escondia a cabeça. Decerto era para oferecer à esposa.
(Pensando agora no assunto, quase me esquecia de vos informar que Stephanie era casada). *1
A respeito de Antero, importa explicar que era espanhol. Daqueles andaluzes temperamentais de sangue quente. Acabava de chegar, após breve deslocação a França e vinha juntar-se à esposa.
Zé Miguel, o filho de Cabrita, tinha ido buscá-lo de carro à estação ferroviária de Vilar Formoso.
O regresso do marido de Stephanie mereceu um breve diálogo entre os irmãos Aparício.
Isto agora, são eles a falar:
- O Antero chega e encontra a mulher despida com outro homem. Cheira-me que vai haver merda.
- Talvez não. Na volta, nem se rala.
- Pois sim. Se fosse algum intelectual das zonas finas de Lisboa, se calhar até ia achar graça. Mas lá na Espanha, os gajos inclusivamente são capazes de possuir um termo específico na língua deles correspondente à nossa palavra Cabrão e concerteza que é ofensivo.
- Pretendes dizer que o Antero não está sintonizado com as mais recentes tendências da liberdade sexual própria dos anos 70 e quando abrir a porta da roulotte vai ter uma reacção machista e, quiçá, até violenta?
- Violenta? Violenta, não sei. Mas que puxará da navalha de ponta e mola, disso não tenho dúvidas. *2
Os Aparícios calaram-se por instantes para pensar. Enquanto isso, ora miravam Antero aproximando-se, ora espreitavam Cabrita e Stephanie quase pegados.
Uma tragédia poderia estar iminente. De modos que uma dúvida instalou-se nas suas cabeças: deveriam avisar o Cabrita?
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*1 - Isto, quando se trata de mulheres bonitas, o estado civil é um pormenor muitas vezes olvidado pelos homens (o que não foi o meu caso).
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*2 – Se o leitor mais atento notou em alguns trechos do diálogo, um tipo de linguagem parecida à de um polícia de trânsito, saiba que o pai dos Aparícios era um agente da autoridade (e figura paternal muito influente na forma de falar dos filhos).
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Continua, quando este post tiver um número de comentários jeitoso.

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terça-feira, 21 de agosto de 2007

(continuação do post anterior)

A história dos meus amigos - Parte 2
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A contorcionista francesa que ingressou no Romagnoli em 1976, era artisticamente conhecida por Stephanie, embora o seu verdadeiro nome fosse Natércia e, de facto, tivesse nascido em Alcochete.
Não obstante, Stephanie insistia em exprimir-se na língua de Alexandre Dumas e gostava de se apresentar na condição de estrela internacional gaulesa.
O talento de Stephanie, contudo, era medíocre. O seu sucesso na arte circense baseava-se sobretudo numa aparência física excepcional, composta por um corpo de sonho (que só dava vontade de comer) e um rosto incrivelmente belo, cuja boca só apetecia beijar (ou pior).
E era graças a essa beleza corporal de Stephanie, maximizada por um bikini minúsculo, que um número de contorcionismo perfeitamente banal se transformava num espectáculo soberbo, particularmente interessante pela sua sensualidade. *1
Stephanie era uma artista excepcionalmente bem remunerada. A forma como decorreu a negociação do seu contrato com Cabrita, ainda hoje permanece nos anais da história do circo Romagnoli, como símbolo de firmeza e engenho negocial.
Reza a lenda que, após uma longa série de reuniões no gabinete de Cabrita, as partes não conseguiam entender-se relativamente aos valores a receber por Stephanie. A francesa queria mais, mas Cabrita recusava-se, repetindo que não havia dinheiro. Então, disposta a jogar uma cartada decisiva, Stephanie convidou Cabrita para realizarem nova ronda negocial, mas desta vez só os dois, num ambiente mais íntimo, na roulotte da artista.
Ele, embora percebendo a marosca, corajosamente concordou. Stephanie achou que já o tinha no papo.
Mas Cabrita era muito hábil. Embora comparecendo no dia combinado, cumpriu a regra dos bons negociadores, chegando com cinquenta minutos de atraso e apenas para repetir o mesmo de sempre: que a companhia não tinha dinheiro que permitisse pagar mais.
Os Aparícios, naqueles dias, andavam também a negociar os valores da renovação do seu contrato e estavam muito interessados em saber qual a verba que Stephanie iria ganhar. A ideia era exigir ao Cabrita o suficiente para continuarem a ser os artistas mais bem pagos do Romagnoli e portanto, nunca menos do que Stephanie. Mas, por outro lado, também não queriam pedir um valor excessivo que ofendesse o Cabrita.
Dispostos a obter tão preciosa informação, decidiram espiar as negociações indo encostar-se ao exterior da roulotte, espreitando pela janela e tentando escutar a conversa entre Cabrita e Stephanie
No interior da roulote o tempo arrastava-se. Cabrita continuava irredutível. Stephanie, percebendo a firmeza do empresário, optou por fazer o que tinha planeado (lançar a bomba atómica). Pediu licença, retirou-se, e alguns segundos depois regressou praticamente nua.
A pretexto de querer mostrar uma novidade que pretendia introduzir no seu número, Stephanie havia-se livrado das roupas e trazia agora apenas um bikini escandaloso, em tons de leopardo, próprio das actuações em pista.
Era nítido que a contorcionista pretendia atingir o seu objectivo através do assédio sexual.
Permanecendo sentado, Cabrita tentou manter a fleuma, mas não tardou que o suor lhe alagasse toda a fronte. As dimensões reduzidas da roulotte obrigavam a que Stephanie, ao exibir-se, quase roçasse o corpo na sua cara.
Lá fora, face ao que assistiam, os Aparícios temeram pelo seu estatuto de artistas mais bem pagos da companhia. Interrogaram-se: conseguiria Cabrita resistir e continuar a dizer que não?
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(continua, quando as autoridades o permitirem e a mim me apetecer)
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*1- Digamos que era uma sensualidade muito apreciada pelo público masculino, que no final do número sempre aplaudia delirantemente (mas nunca de pé).

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segunda-feira, 30 de julho de 2007

A história dos meus amigos (Parte 1)

Domingos era um afamado enfermeiro cá da terra, cuja experiência em práticas curativas remonta aos tempos em que se iniciou como enfermeiro improvisado na Guiné, durante a guerra colonial.
Barradas, que é sobrinho do Domingos, quando era jovem, via no tio uma espécie de herói e modelo a quem imitava e seguia para onde quer que Domingos fosse. E Domingos ia para muito lado, porque naquele tempo, no exercício das suas funções, Domingos costumava acompanhar o grande Tito de La Lomba, fenomenal novilheiro português natural do Entroncamento.
Domingos prestava preciosos serviços de enfermagem a Tito, que muitas vezes (muitas mesmo) durante as suas actuações pelas arenas de Portugal e Espanha, sofria tremendas colhidas e cargas de porrada de animais com cornos, nomeadamente novilhos, touros e maridos de namoradas casadas.
No Inverno, época em que na península ibérica não se realizam touradas, Tito de la Lomba, ganhava a vida como amestrador de feras no circo Romagnoli,.
O Grandioso Circo Romagnoli, vivia naquela época os seus tempos áureos, desde que o Sr. Cabrita, brilhante empresário algarvio radicado em Vila Nova da Barquinha, o havia adquirido a Dom José Romagnoli, na condição de manter a empresa com o nome do seu fundador.
Da falência iminente ao apogeu, foi um curto espaço de tempo. Sob a direcção de Cabrita o Circo Romagnoli contava agora com algumas das figuras maiores da arte circense nacional. Havia uma família de trapezistas, os fabulosos irmãos Aparício, que por acaso até são meus primos e que disputavam com Tito de La Lomba, o lugar de principal figura do espectáculo.A rivalidade entre os Aparícios e Tito era imensa. Ambas as partes tentavam superar-se constantemente, apresentando números cada vez mais arrojados e perigosos. Mas a rivalidade ultrapassava o espectáculo na pista, pois um dos Aparícios, Luís, disputava ferozmente com Tito o coração (e os favores sexuais) de Stephanie, a contorcionista da companhia.

(Continua quando tiver paciência para contar o resto)

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domingo, 22 de abril de 2007

Meias e sovacos. A moda e o sexo. E tudo sobre nada.

No casamento, já se sabe, o homem faz a mulher e a mulher faz o homem. No meu caso, a Mekinha sendo uma mulher moderna, tem vindo a transformar-me num homem sincronizado com as últimas tendências da moda masculina. Portanto, para vossa surpresa, saibam que já deixei de usar meias brancas há mais de três anos e agora só uso meias pretas.
Ah! E atenção ! Não julguem que as compro no mercado mensal de Azeitão. Por acaso, ainda há pouco comprei 15 pares de meias (todas iguais, todas pretas) mas foi na Calzedonia, numa promoção que eles tinham no Torres Shopping.
Isto de comprar meias iguais até acaba por ser uma coisa prática porque assim evito a trabalheira de juntar os diferentes pares quando tiro as meias, já secas, da corda. Vai tudo ao molho para a penúltima gaveta da mesinha de cabeceira (aquela por cima da última, a tal onde discretamente guardo os preservativos, as algemas e mais alguns objectos sexuais que não quero especificar).

Agora, aposto que não conseguem adivinhar a mais recente inovação que a Mekinha operou em mim.
Pois é, começou por se queixar que os meus sovacos cheiravam mal. É certo que, um gajo de manhã, às vezes com a pressa para sair de casa quase nem molha o sabonete. E, na verdade, confesso que sou mais meticuloso a lavar o pénis do que propriamente um sovaco (que ainda por cima são dois) mas mesmo assim, comecei por não lhe dar razão.
Porém, a Mekinha continuou a implicar com os meus sovacos, tento passado a exigir-me que tomasse banho também à noite antes de ir para a cama.
Ontem, talvez devido ao meu recente ingresso profissional no mundo da moda, finalmente rendi-me à derradeira exigência da Mekinha e pronto, deixei que ela me rapasse os pêlos sovacais.

É uma sensação estranha, esta de ficar rapadinho. Não consigo parar de passar com as mãos por debaixo dos braços. Parece que estou a apalpar uma gaja, o que me faz recordar os belos tempos da infância, quando comecei a sentir em mim (mais precisamente entre pernas) o desejo inexorável pelo sexo oposto.
Recordo-me como se fosse hoje. Comecei por me aliviar com a mão. Mas isto é uma coisa que não pára de exigir cada vez mais duma pessoa. Às vezes tentava com a esquerda, para dar a sensação de que não era eu. Mas não era suficiente. Então ouvi falar em melancias e resolvi experimentar. Também recorri a almofadas, mas tudo aquilo me parecia demasiado inanimado, sem vida e sem calor. Entendem?
Ainda pensei nas cabras da Ti Ana, mas tive medo do Bode (ao contrário do Barradas, esse grande destemido).
A certa altura, pensei em construir uma máquina de bater punhetas. Assim uma coisa simples. Eléctrica, mas simples. Recordo-me que se chegou ao ponto em que a coisa se constou lá na rua e uma catrefada de putos meus amigos ofereceu-se para ajudar no projecto, na condição de também usarem a tal máquina.
Apareceram com fios de cobre, pilhas, interruptores e até lâmpadas. Sem sucesso. Embora um dia tivesse ficado com a pichota estrangulada na máquina de costura da minha avó, a verdadeira máquina de bater punhetas nunca chegou a realizar-se.
Um dia, devíamos ter uns sete ou oito anos, o Muralha convenceu umas vizinhas da nossa idade a irmos tomar banho no açude da ribeira, sem o conhecimento dos pais.
A certa altura, o Muralha levou-as para o palheiro da Ti Clementina e fez “coisas” com elas, por tempo e à vez (parece-me que era... 10 minutos com cada uma).
Infelizmente, não pude participar na orgia. Tinha feito a 1ª comunhão há pouco tempo e tive medo que fosse pecado, de modos que só ele é que “brincou” com as meninas. Nesse dia, à noite, antes de dormir jurei a mim mesmo que quando fosse adulto me tornaria um mestre do sexo. De preferência na prática, mas nessa impossibilidade, pelo menos em teoria.
E aqui estou eu, neste brilhante blog a ensinar tudo o que sei...

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sexta-feira, 13 de abril de 2007

O doutor da Mula Ruça (1º episódio da novela homónima)

Dizia-se doutor e como vivia com a Quitéria, era conhecido cá na zona pelo nome de “doutor da Mula Ruça”, por causa da alcunha da companheira.

A filha mais nova do tio João Marques, era uma bela moça, alta e peituda, com as curvas todas no sítio, curvas em número mais que suficiente para virar a cabeça de qualquer homem apreciador do sexo feminino.
A Quitéria, assim se chamava a rapariga, sabia que era boazona e, ainda por cima, era amiga de se arranjar. Todos os meses, a cachopa pintava o cabelo na cabeleireira, em tom de loiro platinado, tal Marilyn Monroe.
Não se sabe a quem puxou, mas era evidente que a moça tinha nascido com umas ideias demasiado avançadas para a época. Por volta dos 18 anos falava-se que já tinha fornicado com mais de metade da rapaziada cá da aldeia e, dizia-se mesmo que uma vez até tinha feito sexo oral. Não admira portanto, que aos 19 anos, talvez por causa deste comportamento e também da cor extravagante do seu cabelo, a Quitéria tivesse granjeado a alcunha de “Mula Ruça”.
Foi então, num belo dia de Setembro, que a “Mula Ruça” resolveu partir para se empregar na casa duns ricaços em Lisboa (na versão de uns) ou para ir prostituir-se numa casa de meninas, algures para os lados da Travessa da Glória (na versão de outros).
Os anos foram-se passando. Eu, entretanto, estive emigrado por essa Europa fora e, confesso que até já me tinha esquecido da “Mula Ruça” (e do broche) quando não é o espanto, meu e de todos cá na terra, quando se soube que a “Mula Ruça”, após vinte anos de ausência, resolvera regressar à terra que a tinha visto nascer.

Eram dez horas da noite. Entrei no café do Mocho e sentei-me ao balcão. Vinha dum dia lixado no stand, sem ter conseguido vender nenhum carro.
Foi por volta da minha segunda cerveja que a curiosidade se me despertou. Quem seria a jeitosa sentada na mesa do canto acompanhada daquele indivíduo com ar de chulo?
(continua).

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quinta-feira, 29 de março de 2007

Quando fiquei barricado numa universidade.

Era uma vez uma universidade privada em Lisboa, onde dois grupos lutavam pelo controlo da mesma. Então, houve alunos que ocuparam essa universidade. Foi em Março, lembro-me porque estive lá.
É verdade, apesar de nunca ter feito a 1ª classe, aqui o Bino chegou a andar numa Universidade. E quando digo "andar" é mesmo literalmente, porque eu só lá fui ver aquilo. Estudantes, eram o Barradas e a Fam-Fam.
Corria o ano de 1986 e o Barradas falou-me ao telefone que ia barricar-se numa Universidade. Se eu também queria alinhar ? Bom, se era para haver porrada, que contasse comigo. E parece que pancadaria era coisa certa de acontecer porque se os ocupas eram de um lado da contenda, do outro havia quem os quisesse expulsar de lá para fora à força.
A fim de me dirigir ao local e visto ter dificuldades em orientar-me nas difíceis ruas da capital, recorri aos magníficos serviços de transporte da CP e chegado a Lisboa, apanhei um Táxi directamente para a Rua Vitor Cordon, perto do Chiado.
Eram umas 6h da tarde, pára o táxi mesmo em frente aos portões da Universidade. Do interior da viatura sai um jovem cabeludo, trajando um sensacional blaser de veludo amarelo e umas apertadas calças de ganga azul vivo, a condizer com sapatos brancos (portanto, algo parecido com as cores da bandeira ucraniana).
O táxi deixa rapidamente o local. A súbita chegada do indivíduo desperta a curiosidade dos alunos barricados atrás do portão, bem como daqueles que cercam a Universidade, parados do outro lado da rua, no passeio oposto.
O recém chegado, mochila militar numa das mãos, óculos escuros, dirige-se ao portão, disposto a entrar. Mas como não o conhecessem e com receio que fosse uma cilada, os de dentro recusam-se franquear-lhe o acesso. Ao ver-se sozinho no lado errado da barricada, o desconhecido percebe que se encontra numa situação perigosa. Evita olhar para trás, na direcção do grupo que pretende tomar de assalto a Universidade para acabar com a ocupação.
Recorrendo aos seus poderosos métodos de presuasão, Bino (moi-même, pois quem haveria de ser ?) tenta convencer os barricados que o deixem penetrar.
Uma betinha histérica é a mais renitente, tenta evitar a todo o custo que se abra o portão gritando que se trata duma armadilha.
Bino finge ignorá-la e dialoga com a rapaziada que, por fim, rendidos aos argumentos resolvem meter a chave no cadeado e deixá-lo entrar.
Já a salvo, Bino fuzila com o olhar a betinha histérica duvidando se se tratava de pânico ou da natureza própria de quem só considera humano os outros betinhos da mesma laia.
Subindo ao bar, Bino encontra finalmente Barradas que está nos copos. Cumprimentos efusivos, lá, são-lhe apresentados alguns gajos porreiros, todos dos subúrbios e que desprezam, tanto ou mais que ele, os totós dos betinhos de Lisboa e da linha (a quem chamam pachás).
Nas redondezas há miúdas giras. Bino admira miúdas inteligentes, mas também não as despreza se tiverem um palminho de cara bonito (especialmente quando acompanhado por um bom rabo).
Elas ficam impressionadas pela fleuma verdadeiramente britânica demontrada por Bino e Castelo (um bacano de Pirescoxe) que jogam calmamente xadrez, aparentemente alheios ao ambiente frenético instalado por toda a Universidade, num claro desprezo pelo perigo.
O lider da ocupação aparentemente é um aluno do 4º ano a quem chamam Jotajota. Movimenta-se apressado de um lado para o outro, com um grupo de gajos atrás. Não gosto da pinta dele.
Entretanto, alguém tenta electrificar as grades que cercam o edifício, sem sucesso. Não têm conhecimentos de electricidade o suficiente para saber que, para se electrificar uma cerca, esta tem obrigatoriamente que estar isolada, a fim de não haver passagem imediata de corrente para a terra. Inevitavelmente os dijuntores no quadro eléctrico disparam e as luzes apagam-se. Após algumas tentativas, desistem de tentar electrificar a grade e o portão.
Novamente no bar, que fica no sotão (e onde estão as garinas) o Barradas esforça-se por convencer uma caloira que aquela poderá ser a última noite da vida deles e que talvez o mais acertado seja aproveitarem o melhor possível aquelas últimas horas. A caloira, dá-lhe razão, desiste de ler o manual do Martinez e dedica-se ao alcóol o resto da noite. O Barradas não se dá por vencido e rapidamente descobre outra caloira a quem tenta dar o mesmo golpe.
Pela minha parte, estava no telhado da Universidade a conversar com uma aluna quando finalmente, já a noite ia alta, se dá o ataque dos de fora a fim de nos expulsarem.
Um tipo chamado Banza, ao portão, dá uma extintorada num atacante que fica branco de neve carbónica. Do alto do edifício chovem pedras e garrafas de cerveja que se estilhaçam na calçada da rua. Resolvo aderir à festa mandando também algumas pedras de calçada. Reparo que a alguns metros, um pouco ao lado do grupo que tentava entrar, do outro lado da rua, estão dois homens parados a observar os acontecimentos. Não são jovens e calculo que sejam eles quem comanda as operações. É neles que quero acertar. Agarro numa garrafa de cerveja e faço pontaria a um deles. A garrafa vai direitinha à careca do gajo, mas subitamente roça num fio dos eléctricos da carris e desvia-se o suficiente para se partir em mil pedaços mesmo junto aos pés deles. Os gajos percebem que estão a ser atacados e retiram-se rapidamente. Hoje compreendo que felizmente não lhe acertei na mona, podia tê-lo matado.
Os incidentes continuam por mais um pouco, escutam-se alguns disparos de arma de fogo, um carro da polícia passa e é apedrejado (acto estúpido) e finalmente os atacantes afastam-se sem conseguirem entrar.
Pouco depois chega o corpo de intervenção da PSP, que forma junto à esquina da Vitor Cordon com a António Maria Cardoso, mas virada para o nosso lado.
A polícia parece preparar-se para entrar na Universidade e sendo assim, o caso muda de figura (complica-se).
Ficamos na expectativa. O tempo vai passando. A polícia não avança, mas também não se retira. Entre a malta, corre a ideia de que se eles entrarem a gente sai sem resistir.
As horas passam e nada... não acontece nada. Depois, a Polícia retira-se para as carrinhas ali estacionadas. Mais algumas horas e por fim, vão-se embora.
O dia nasce e percebemos que a ocupação venceu. Deixamos finalmente as instalações da Universidade com a garantia de que tudo se resolverá. Vêm as férias da Páscoa. Depois nasce outra Universidade que se instala na Junqueira.
Irei lá algumas vezes ter com o Barradas e com os amigos dele, o Castelo, o Espadinha, o Óscar e o Nuno de Barcarena. Assistir a provas orais, ver as gajas, coisas desse estilo. Estudar é que não. Na Universidade aprende-se umas merdas, claro, mas perde-se muito tempo.

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domingo, 28 de janeiro de 2007

O meu Natal foi assim.

A sério que tenho pena dessa malta lisboeta que não tem uma terra onde ir passar o Natal.
Recordo com saudade os meus tempos de emigrante, quando regressava por breves dias ao nosso querido Portugal, nas férias do Verão e no Natal.
Não existe maior felicidade do que andar pelo estrangeiro e regressar depois à pátria.
Quando regressei de vez e casei com a Mekinha, quase me tornei lisboeta ( eu é que não quis). Isto porque ela é destas bandas e, não querendo mudar-se para a província, vim eu morar para os arredores da capital (mais concretamente para a margem sul, num luxuoso bairro da 34ª melhor cidade portuguesa para se viver).
No entanto, o meu contacto com as avenidas mais largas, os prédios mais altos e os maiores centros comerciais de Portugal não conseguiu apagar em mim o sentimento de saudade pelos tempos da emigração. De tal maneira que quando vou a Estremoz, aproveito para ir até Badajoz de propósito, só para sentir novamente o prazer de regressar a Portugal.
E também a moderna Lisboa, com as suas longas filas de trânsito, não me fez esquecer a linda aldeia beirã onde fui feito. Continuo a ser o homem simples e humilde que um dia partiu mundo fora, apesar dos ambientes sofisticados que tive a sorte de conhecer.
Portanto, como bom português fiel às minhas raízes, quando chega o Natal lá vou eu com o resto da família, rumo ao Norte a caminho da terra, passar a consoada e matar o porco.
Então, no sábado, fomos de viagem (eu, a Meka e as nossas duas filhotas) a ripar de carro, Ribatejo acima, eram umas 8 e meia da noite.
Porto Alto, Samora Correia, Benavente...
Parámos na Chamusca, no restaurante da ponte.
Caraças, deixei o carro mal travado, descaiu e começou a recuar sozinho. Por sorte ainda consegui voltar a entrar e jogar as mãos ao travão de mão. Antes que muito mal acontecesse, parou na rotunda. Meu rico carrinho que se podia ter amachucado todo.
Depois do susto, fomos comer. Folhados de queijo e Ice Tea para elas, sandes de fiambre e Sumol de laranja para mim.
Voltámos à estrada. As pequenitas entretanto, adormeceram. Chegámos finalmente à terra já depois da meia noite.
Foi só o tempo de tirar a bagagem do carro e deitar as meninas. A Meka ficou sentada à lareira a conversar com as mulheres da família e eu pirei-me com os meus irmãos para o largo da Igreja. Todos os anos o pessoal da terra faz uma fogueira com troncos de oliveira tão grossos que ardem vários dias, para a malta não ter frio. Até dá para assar febras e morcela nova nas brasas.
Pronto, isto já se sabe, a malta junta-se. Uns vivem lá, mas também há os que vêm da França ou da Alemanha, outros da Suiça e muitos de Lisboa.
Vamos comendo e bebendo enquanto conversamos. As horas vão passando. Aos poucos a maioria vai-se embora, dormir. Mas há sempre meia dúzia de resistentes que insiste em permanecer junto à fogueira.
Deviam ser umas 2 da manhã, acho que foi o Bino mais velho que desafiou a malta para irmos roubar um bichinho de 4 patas (leia-se coelho).
Onde, a quem e como ? Em poucos minutos de discussão, o Chico, notável especialista nestas coisas de gamar criação, já tinha um plano aparentemente infalível.
Com o Chico ao comando das operações, fomos a pé em grupo compacto. Éramos uns sete, descendo a ladeira, direitos ao casal de baixo (local onde iríamos cometer o roubo).
Chegámos ao largo do jogo, onde costumam fazer um presépio em tamanho natural. No silêncio da noite, ouvimos barulho. Parámos à escuta, era como como se alguém ressonasse. Olhámos melhor e então, descobrimos o Tonho Gato no presépio. Perdido de bêbado, tinha ido deitar-se a dormir entre as palhinhas, no lugar do menino Jesus.
Achámos escandaloso. Que fazer àquele cabrão ? Jogamos-lhe pedrada ou água do bebedouro em cima ? Àgua não, urina sim. O Chico queria ir lá mijar-lhe em cima.
Mas as coisas acabaram por precipitar-se noutro sentido. Tinhamos decidido fazer-lhe uma salga. Agarrámos o gajo e conseguimos tirar-lhe as calças. Mas no derradeiro momento, quando ficou sem cuecas parámos estupefactos como que fulminados por um raio.
Como é sabido, nós beirões, somos uma malta excepcionalmente bem aviada de orgão sexual. Mas o Gato, cuidado. Aquilo dele é um abuso em qualquer parte do mundo, até em Àfrica.
Aproveitando a pequena hesitação, o Gato conseguiu escapar-se de nós. Desatou a correr para casa dele. Refeitos do susto, ainda tentámos agarrá-lo novamente. Porém recuámos rapidamente quando verificámos que os gritos do Tonho Gato tinham chamado a atenção dum grupo de pessoas que estava num velório na capela mortuária, que é mesmo ali junto ao largo e que sairam para a rua ver o que se passava.
Alguns homens que estavam no velório viram tudo, mas consta que conseguiram fechar a porta da casa mortuária a tempo de evitar que as mulheres saissem para a rua e vissem o Tonho Gato correndo nú da cintura para baixo, com o bacamarte exposto.
Virámos costas e então, também nós corremos, mas em sentido inverso do Gato, para não sermos reconhecidos.
Só parámos no Casal de Baixo, mas já não apetecia coelho. Sem mais conversa, dispersámos, cada um para sua casa.
No dia seguinte, cheio de vergonha que me tivessem reconhecido, achei que era meu dever, como penitência, ir ao funeral da ti Maria de Jesus, querida velhinha falecida com 96 anos, de quem eu gostava muito. Que Deus a tenha em descanso.
O meus irmãos também foram ao funeral. Ali, e depois, durante o resto do dia, por toda a aldeia, ouvimos as pessoas fazerem conversa acerca do sucedido na noite anterior. Mas para nosso alívio ninguém avançava nomes. Acima de tudo, o assunto centrava-se em considerações acerca do tamanho avantajado do Tonho Gato (e também, que tinha sido chamado o 112, tendo uma pessoa ido de ambulância para o Hospital de Abrantes).
Felizmente, ninguém parecia interessado em saber quem seriam os malandros que o tinham despido. Assunto sobre o qual, o próprio Gato mantinha absoluto silêncio, recusando-se a fornecer qualquer nome.
À noite, mesmo assim, sentindo a minha consciência ainda algo pesada por termos perturbado o velório, cometi um facto quase inédito: fui também à missa do Galo.
...No entanto, não tive coragem de ir beijar os pés ao menino Jesus.
Porque uma das minhas maiores frustrações aqui, prende-se com o facto de parecer que muita gente não acredita na veracidade dos meu posts, sempre que possivel passarei a publicar imagens, videos ou sons. Como forma de comprovar o quanto são verdadeiros os meus relatos.

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