terça-feira, 13 de setembro de 2005

Apeteceu-me ! (esta aprendi com o Carlos )

I
Eu, o Puto.


O Triumph Spitfire vermelho descia na brasa as curvas do Alto do Lagoal rumo a Caxias. Ao volante, o Jaime virou-se para mim com ar de gozo :
Ó puto vê lá não te cagues, que aí é o lugar do cão.
Mas eu, ia na boa. Só me incomodava ir tão encolhido no curto espaço existente por detrás dos dois únicos assentos.
No "lugar do morto", o Guga ocupava-se em fumar um cigarro distraído.
Já em Caxias, paramos na bomba de gasolina. O Jaime salta para fora do carro.
-- Mandem atestar que eu vou ali à farmácia.



Eu e o Guga ficamos silenciosos a ouvir o bater seco duma basta chuva miudinha tocada a vento na capota de lona, mesmo por cima das nossas cabeças. É um daqueles dias cinzentos de Outubro que nos faz ter saudades do Verão.
-- O mar de certeza está bravo. Temos a pesca estragada.
O Guga concorda comigo acenando que sim com a cabeça.
Entretanto, o Jaime regressa a tempo de fechar o tampão do depósito e pagar ao homem da bomba.
Abeiram-se dois gaiatos a distribuir propaganda política. O Jaime enxota-os. Não insistem.
Arrancamos novamente em alta velocidade. "Vê se me encontras aí a cassete dos Deep Purple", pede o Jaime.
Mas o Guga não encontra népia. Está montes de lento, desconfio que são efeitos do vinho do almoço.
Quando finalmente se começou a ouvir "Smoke on the water" já íamos em plena avenida Marginal.
Damos um pulo desesperado a Paço de Arcos, ao menos para ver se está tudo em ordem com o bote do Jaime.
O barco está fixe, mas ficamos todos lixados com a merda do tempo que nos impede de ir á pesca.
-- E agora, o que é que um gajo faz ?
Durante alguns minutos ficamos embasbacados dentro do carro a olhar para o mar revolto.
É sempre assim: tempo de sobra, sem nada para fazer , nem saber para onde ir. Eu até sei o que é que me apetecia fazer. Mas também, não admira: estou sempre a pensar em sexo...
Finalmente, o Jaime sai-se com uma ideia:
-- Olhem, conheço umas gajas que ao Domingo costumam ir ao baile, nos Bombeiros de Algés.
-- Só agora é que dizes ? Vamos já lá ! -- Respondo-lhe eu.
O Guga também concorda.
Não demoramos mais. De novo na estrada lá vamos nós, ansiosos pelas garinas.
Fazemos a curva do Mónaco a abrir. Na zona da Cruz Quebrada avistamos um jipe da GNR... ultrapassamo-lo devagar (como convém). Já afastados do perigo, o Jaime aproveita para acender um cigarro e guiar com os joelhos. Ri-se.
Chegamos enfim a Algés, mas o baile está fraco.
"É da chuva..." desculpa-se o Guga, "ficou tudo em casa a ver televisão".
Ainda por cima as amigas do Jaime não vieram ao baile.
Meu rico Domingo... Só de pensar que amanhã começa a escola ainda me dá um ataque.
O Jaime de repente, deixou de se ver. Pergunto por ele ao Guga. "Pirou-se. Disse que ia ás putas ao Restelo. Não deve demorar".
Pois!... Bem me queria parecer que aquele cabrão não é lá muito do estilo de se perder em bailaricos. De certeza já trazia esta na manga.
Ali ficamos, eu e o Guga, de perna dobrada, encostados a uma parede, a controlar o baile.
O conjunto é uma merda. Só sabem tocar Camilo Sesto, Nelson Ned e outras foleiradas do género. "O que é que você vai fazer Domingo á tarde?" canta o vocalista. Por mim, enforcava-o no fio do micro.
Viro-me para o Guga:
-- Quem me dera os Apocalipse...
-- Pá, isto a gente hoje tivémos foi azar, calhou estarem cá estes foleiros. Porque até costumam tocar aqui bons conjuntos.
No centro da sala, meia dúzia de pares arrastam-se ao ritmo da música.
Um deles desperta-me a atenção. São de certeza namorados e têm mais ou menos a minha idade. Ela é boa com'ó milho e ele, um vaidoso da merda.
Se o meu olhar de inveja matasse, o cabrãozão caía fulminado em pleno dancing, agora mesmo.
Não percebo o que é que as miúdas vêem nestes paneleiros cheios de mania que são bons.
Entretanto, regressa o Jaime. Cigarro na boca, passo lento, quase á toureiro...
O sacana tem estilo, às vezes até parece um actor de cinema acabadinho de sair do écran. Pelo menos, é o que diz a Paula, a minha irmã mais velha.
Sentadas nas cadeiras, duas ou três miúdas mandam olhares ao Jaime, que não lhes liga. Os duros não dançam e o Jaime também não. Tem pressa em sair dali para fora. Acabamos por ir.
Começa a fazer-se noite quando chegamos á nossa "ilha", o nome que damos ao bairro onde moramos.

II
Eu, o Jaime


O Puto tem 16 anos, mas parece que só tem 12. É um enfezado do caraças, pele e osso e nada mais. Ao princípio até lhe chamávamos o "Biafra". Mas é esperto como um corno. Não se mistura com os da idade dele. Gosta de acompanhar com pessoal mais velho. Faz de conta que é a mascote.
E então, estávamos a jogar snooker na sala de jogos do café Matias e o gajo a querer saber... "No outro Domingo, a puta que tu fodeste era boazona ?" , quase parecia que perguntava por acaso, enquanto preparava a tacada... E insistia, "que idade tinha ela?"
Mas eu não me descosia e protestava em voz baixa, "isso, espalha aí pelo bairro que eu vou ás putas".
E o Puto, com ar sério, "não digo a ninguém...Juro".
Olhei à nossa volta. Não havia mais ninguém na sala de jogos. Cheguei-me perto dele e olhei-o bem nos olhos:
-- Por que é que queres saber ? -- Respondeu-me meio envergonhado:
-- Naquele dia, gostava de ter ido contigo ás putas... Nunca fui. -- Por instantes fiquei especado a olhá-lo. Depois, Peguei outra vez no taco e recomecei o jogo. Enquanto atirava à bola 8 fiz um sorrizinho discordante:
-- Impressão tua !
A 8 entrou no buraco.
O Puto ficou a olhar, sem compreender.
Iniciámos novo jogo. Decidi explicar melhor:
-- Se te apetece foder a solução é arranjares uma gaja que grame foder contigo.
-- As miúdas não gostam de foder.
-- Algumas gostam.
-- As putas...
-- Não ! Essas, são as que menos gostam.
-- 'Tás a gozar !
-- Falo a sério. Contigo ou com outro, é igual. Desertinha está a puta que te venhas depressa e saias de cima dela.
Algumas esposas, quando o marido lhes salta para cima também querem é que ele se despache.
Num caso ou noutro, achas que dá algum gozo estares a foder com alguém que sabes que está a fazer frete ?
-- Sempre há-de ser melhor que bater punheta.
-- Vai por mim, puto. Arranja antes uma chavala que atine contigo. Apaixona-te, não queiras ser como eu.

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