domingo, 23 de setembro de 2007

A história dos meus amigos (recapitulando, 1)

Domingos era um afamado enfermeiro cá da terra, cuja experiência em práticas curativas remonta aos tempos em que se iniciou como enfermeiro improvisado na Guiné, durante a guerra colonial. Barradas, que é sobrinho do Domingos, quando era jovem, via no tio uma espécie de herói e modelo a quem imitava e seguia para onde quer que Domingos fosse. E Domingos ia para muito lado, porque naquele tempo, no exercício das suas funções, Domingos costumava acompanhar o grande Tito de La Lomba, fenomenal novilheiro português natural do Entroncamento.
Domingos prestava preciosos serviços de enfermagem a Tito, que muitas vezes (muitas mesmo) durante as suas actuações pelas arenas de Portugal e Espanha, sofria tremendas colhidas e cargas de porrada de animais com cornos, nomeadamente novilhos, touros e maridos de namoradas casadas.
No Inverno, época em que na península ibérica não se realizam touradas, Tito de la Lomba ganhava a vida como amestrador de feras no circo Romagnoli.
O Grandioso Circo Romagnoli, vivia naquela época os seus tempos áureos, desde que o Sr. Cabrita, brilhante empresário algarvio radicado em Vila Nova da Barquinha, o havia adquirido a Dom José Romagnoli, na condição de manter a empresa com o nome do seu fundador.
Da falência iminente ao apogeu, foi um curto espaço de tempo. Sob a direcção de Cabrita o Circo Romagnoli contava agora com algumas das figuras maiores da arte circense nacional. Havia uma família de trapezistas, os fabulosos irmãos Aparício, que por acaso até são meus primos e que disputavam com Tito de La Lomba, o lugar de principal figura do espectáculo.
A rivalidade entre os Aparícios e Tito era imensa. Ambas as partes tentavam superar-se constantemente, apresentando números cada vez mais arrojados e perigosos. Mas a rivalidade ultrapassava o espectáculo na pista, pois um dos Aparícios, Luís, disputava ferozmente com Tito o coração (e os favores sexuais) de Stephanie, a contorcionista da companhia.
A contorcionista francesa que ingressou no Romagnoli em 1976, era artisticamente conhecida por Stephanie, embora o seu verdadeiro nome fosse Natércia e, de facto, tivesse nascido em Alcochete. Não obstante, Stephanie insistia em exprimir-se na língua de Alexandre Dumas e gostava de se apresentar na condição de estrela internacional gaulesa.
O talento de Stephanie, contudo, era medíocre. O seu sucesso na arte circense baseava-se sobretudo numa aparência física excepcional, composta por um corpo de sonho (que só dava vontade de comer) e um rosto incrivelmente belo, cuja boca só apetecia beijar (ou pior). E era graças a essa beleza corporal de Stephanie, maximizada por um bikini minúsculo, que um número de contorcionismo perfeitamente banal se transformava num espectáculo soberbo, particularmente interessante pela sua sensualidade.
Stephanie era uma artista excepcionalmente bem remunerada. A forma como decorreu a negociação do seu contrato com Cabrita, ainda hoje permanece nos anais da história do circo Romagnoli, como símbolo de firmeza e engenho negocial. Reza a lenda que, após uma longa série de reuniões no gabinete de Cabrita, as partes não conseguiam entender-se relativamente aos valores a receber por Stephanie. A francesa queria mais, mas Cabrita recusava-se, repetindo que não havia dinheiro. Então, disposta a jogar uma cartada decisiva, Stephanie convidou Cabrita para realizarem nova ronda negocial, mas desta vez só os dois, num ambiente mais íntimo, na roulotte da artista. Ele, embora percebendo a marosca, corajosamente concordou. Stephanie achou que já o tinha no papo.
Mas Cabrita era muito hábil. Embora comparecendo no dia combinado, cumpriu a regra dos bons negociadores, chegando com cinquenta minutos de atraso e apenas para repetir o mesmo de sempre: que a companhia não tinha dinheiro que permitisse pagar mais.
Os Aparícios, naqueles dias, andavam também a negociar os valores da renovação do seu contrato e estavam muito interessados em saber qual a verba que Stephanie iria ganhar. A ideia era exigir ao Cabrita o suficiente para continuarem a ser os artistas mais bem pagos do Romagnoli e portanto, nunca menos do que Stephanie. Mas, por outro lado, também não queriam pedir um valor excessivo que ofendesse o Cabrita. Dispostos a obter tão preciosa informação, decidiram espiar as negociações indo encostar-se ao exterior da roulotte, espreitando pela janela e tentando escutar a conversa entre Cabrita e Stephanie.
No interior da roulote o tempo arrastava-se. Cabrita continuava irredutível. Stephanie, percebendo a firmeza do empresário, optou por fazer o que tinha planeado (lançar a bomba atómica). Pediu licença, retirou-se, e alguns segundos depois regressou praticamente nua. A pretexto de querer mostrar uma novidade que pretendia introduzir no seu número, Stephanie havia-se livrado das roupas e trazia agora apenas um bikini escandaloso, em tons de leopardo, próprio das actuações em pista. Era nítido que a contorcionista pretendia atingir o seu objectivo através do assédio sexual. Permanecendo sentado, Cabrita tentou manter a fleuma, mas não tardou que o suor lhe alagasse toda a fronte. As dimensões reduzidas da roulotte obrigavam a que Stephanie, ao exibir-se, quase roçasse o corpo na sua cara. Lá fora, face ao que assistiam, os Aparícios temeram pelo seu estatuto de artistas mais bem pagos da companhia. Interrogaram-se: conseguiria Cabrita resistir e continuar a dizer que não?
Perturbados pelo cenário a que assistiam, os Aparícios, lá fora, quase entravam pela janela. Por sua vez, lá dentro, Cabrita afundava-se na cadeira recuando face a Stephanie. Mas o empresário, fiel aos seus princípios, apesar da carne apetitosa rente ao seu corpo, resistia estoicamente repetindo que não tinha dinheiro. Entretanto, os Aparícios notaram que ao longe se aproximava um vulto. Vinha a pé do lado do parque de estacionamento alguém que parecia caminhar lentamente em direcção à roulotte.
O dia terminava, mas ainda existia claridade suficiente para adivinharem que aquilo que viam, embora parecesse um ramo de flores andante, provavelmente seria Antero, o marido de Stephanie, que chegava carregando um ramo de rosas vermelhas. Era um ramo tão grande, que lhe escondia a cabeça. Decerto era para oferecer à esposa. (Pensando agora no assunto, quase me esquecia de vos informar que Stephanie era casada).
A respeito de Antero, importa explicar que era espanhol. Daqueles andaluzes temperamentais de sangue quente. Acabava de chegar, após breve deslocação a França e vinha juntar-se à esposa.Zé Miguel, o filho de Cabrita, tinha ido buscá-lo de carro à estação ferroviária de Vilar Formoso. O regresso do marido de Stephanie mereceu um breve diálogo entre os irmãos Aparício. Isto agora, são eles a falar:
- O Antero chega e encontra a mulher despida com outro homem. Cheira-me que vai haver merda.
- Talvez não. Na volta, nem se rala.
- Pois sim. Se fosse algum intelectual das zonas finas de Lisboa, se calhar até ia achar graça. Mas lá na Espanha, os gajos inclusivamente são capazes de possuir um termo específico na língua deles correspondente à nossa palavra Cabrão e concerteza que é ofensivo.
- Pretendes dizer que o Antero não está sintonizado com as mais recentes tendências da liberdade sexual própria dos anos 70 e quando abrir a porta da roulotte vai ter uma reacção machista e, quiçá, até violenta?
- Violenta? Violenta, não sei. Mas que puxará da navalha de ponta e mola, disso não tenho dúvidas.
Os Aparícios calaram-se por instantes para pensar. Enquanto isso, ora miravam Antero aproximando-se, ora espreitavam Cabrita e Stephanie quase pegados. Uma tragédia poderia estar iminente. De modos que uma dúvida instalou-se nas suas cabeças: deveriam avisar o Cabrita?
Pensaram. Olharam-se por breves segundos. Fizeram cara de achar que sim. Mas de repente, um esgar, um sorriso velhaco e o soltar dum uníssono “nahhhhh”. Foram-se embora, deixando Cabrita entregue à sua sorte.
Passado um minuto, o marido de Stephanie abriu a porta da roulotte.
O grande Antero (nome artístico) tinha um passado envolto em pormenores mal revelados. Não havia a certeza de realmente ser espanhol. Ao certo, sabia-se que trabalhara num circo em França onde conheceu Stephanie. Consta que o pai dela, desgostoso com o casamento da filha, se terá suicidado. Mas Tito de La Lomba sabia que não era verdade. Numa noite de copos, Antero confidenciou-lhe que o sogro tinha morrido subitamente na cama com uma puta durante um “69” (ironicamente, o Pai de Stephanie era conhecido por "Estêvão das matemáticas").
Mas o facto da sua morte ter sido acidental, não significa que Estêvão não tivesse tido um grande desgosto com o casamento da filha. Realmente a todos pareceu estranho que Stephanie, uma mulher tão bela, tivesse tomado Antero por consorte. E não pelo facto de este ser um inveterado mulherengo, mas porque realmente era um homem muito feio (independentemente de ser anão).

Etiquetas:

9 Comentários:

Blogger maria_arvore disse...

É uma reformulação?...:)

Pois está muito melhor com o bikini a "maximizar" a Sthepanhie e o "enfermeiro improvisado" na Guiné. :)
Esperemos os próximos números. :))

23/09/2007, 20:07:00  
Blogger Mikas disse...

Ai senhorrrrrrrrr andas xeio da inspiração!!

24/09/2007, 21:05:00  
Blogger Carlos Barros disse...

curto bué...esta tua vertente...qd temos um livro...já devia ai estar..
abraço..pá

25/09/2007, 18:13:00  
Blogger loira suicida disse...

Sessão de apresentação do meu livro no Festival do Amor, em Beja, este Sábado, no teatro Pax Julia, pelas 18h.
Vai haver coboiada!
Vou estar no período fértil!

Compareçam, se não mato-me!

27/09/2007, 14:50:00  
Blogger Tia Concha disse...

hehehe!

para quando a foto-novela???

01/10/2007, 21:45:00  
Blogger heidy disse...

E lá estás tu a não fazeres caso do pobre anão! Já te disse, pode ter defeitos, mas... ao mesmo tempo... pode-se esforçar e assim de repente, até nem precisa de mapas como a grande maioria dos homens. :p


kisses for the cat

02/10/2007, 01:24:00  
Blogger Cláudio disse...

Sempre que a história mete anão, a coisa ganha contornos de obra de Boris Vian (que teria inveja destas linhas!).

06/10/2007, 21:45:00  
Blogger Carlos Barros disse...

sabes o que gosto em ti...
pois é mesmo este teu espírito...entre o e o ...
e fazes disso um modo de vida...
o que é certo..é que tu é que as levas a certo.
abraço

10/10/2007, 21:50:00  
Blogger heidy disse...

Carlos...com ou sem anão? lol (Bino tás lixado!!)


kixes for the cat

11/10/2007, 04:03:00  

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

<< Página inicial